terça-feira, 4 de outubro de 2016

Morte - A Festa

Nos idos dos anos 80, três escritores praticamente revolucionaram as histórias dos quadrinhos comerciais americanos: o americano Frank Miller e os ingleses Alan Moore e Neil Gaiman. O primeiro, em seu trabalhos para a Marvel com o Demolidor e para a DC com o Batman, mostrou que quadrinhos de super-heróis podem ser sombrios, instigantes, polêmicos e inteligentes, indo muito além do típico conflito entre mocinhos e bandidos. Moore escreveu obras marcantes como V de Vingança, Miracleman, e talvez a melhor obra jamais escrita nos quadrinhos, Watchmen, que tinha como premissa básica a idéia de como seria o mundo real se os heróis realmente existissem. Mas foi com o Monstro do Pântano (para a DC Comics) que ele revitalizou o gênero do terror, criou uma das mais carismáticas personagens dos quadrinhos, John Constantine, e plantou as sementes para a linha de quadrinhos de adultos da DC. 

De igual importância neste aspecto, está o trabalho de Neil Gaiman e seu Sandman. Graças a Moore e Gaiman, os grandes estúdios descobriram que adultos liam quadrinhos e gostavam de temas diferenciados e densos. Sem Sandman e o Monstro do Pântano, não teríamos sido presenteados com obras fenomenais como Hellblazer (estrelado por John Constantine), Livros da Magia, Preacher (do polêmico Garth Ennis), ou mais recentemente 100 Balas, de Brian Azarello e Eduardo Risso (atualmente um dos meus desenhistas preferidos), e o premiadíssimo Fables. 

Neil Gaiman pode ser considerado um dos mais importantes escritores de fantasia da atualidade. Entretanto, ele começou sua carreira como jornalista. Um dos seus primeiros trabalhos foi Violent Cases, com um dos seus mais freqüentes parceiros de trabalho, o artista Dave Mckean. Graças a esse trabalho, ele e Mckean conseguiram uma vaga na DC e realizaram a minissérie Orquídea Negra (que está sendo relançada no Brasil), sobre uma obscura super-heroína da editora. A minissérie possibilitou que eles alcançassem vôos maiores, Gaiman passou a escrever a série mensal Sandman e McKean, além de ser o capista oficial de Sandman, também realizou o especial Asilo Arkhan, escrito por Grant Morisson e estrelado pelo Batman. 


Além de Sandman, Gaiman também é o autor de outros quadrinhos, entre eles Livros da Magia (estrelado por um jovem mago de 12 anos, dono de uma coruja e que usa óculos, muito antes de Harry Potter aparecer) e 1602. E, para completar, Gaiman já escreveu livros de contos e poesias (Fumaças e Espelhos), séries de TV (Neverwhere), romances de fantasia (Deuses Americanos e Belas Maldições), fábulas para adultos (Stardust), livros infantis (Coraline e Lobos nas Paredes) Ganhou diversos prêmios importantes, como o Eisner e o Nebula. 

Já Sandman, considerada a maior obra de Gaiman para os quadrinhos, é uma das mais fascinantes histórias já publicadas pela DC Comics, ganhando fã fervorosos e entusiasmados ao redor de todo o mundo. Alternando momentos de pura fantasia e poesia com outros de um terror indescritível, Sandman ainda tinha o acréscimo de citar diversas mitologias, clássicos da literatura (em especial Shakespeare) e do cinema, trechos de músicas.

A série conta a história de Lorde Morfeu, regente do Sonhar, e um dos sete Perpétuos. Os Perpétuos são seres que não são deuses nem humanos, nem mesmo anjos, são entidades místicas que existem desde que o primeiro ser consciente surgiu no Universo e permanecerão aqui até que o último ser consciente pereça. Mesmo que não reconheçamos, todos nós, inconscientemente, sabemos que esses irmãos existem. São eles: Destino (Destiny), Morte ou Desencarnação (Death), Sonho ou Devaneio (Dream), Destruição (Destruction), Desejo (Desire), Desespero (Despair) e Delírio (Delirium). Morfeu é um dos diversos nomes adotados pelo Sonho, assim como Sandman (Homem da Areia, mais conhecido no Brasil como João Pestana, responsável por jogar areia nos olhos das crianças para que elas durmam).
 
Na realidade, Sandman não é uma criação de Neil Gaiman, o personagem surgiu na década de 30 (a Era de Ouro dos quadrinhos) e era um detetive chamado Wesley Dodds, que usava uma arma de gás para colocar os bandidos para dormir. Outras versões de Sandman se seguiram a essa, mantendo apenas o nome em comum. Quando Neil assumiu a tarefa de relançar o título, apenas aproveitou o nome e recriou totalmente a personagem, seguindo por um caminho totalmente diferente dos seus antecessores. Atualmente, o Sandman da Era de Ouro ainda é considerado como parte da cronologia atual, mas como um herói que atuou nas décadas de 30 e 40; as versões intermediárias são quase completamente esquecidas - com exceção de Hector Hall, filho do Gavião Negro da Era de Ouro, importante dentro da saga de Morfeu, mesmo que indiretamente. 

A saga de Morfeu começa com o velho bruxo tentando capturar a Morte e por acidente capturando seu irmão mais novo. Isso aconteceu no começo do século passado. Durante anos, o Sandman esteve preso na mansão do feiticeiro, até que conseguiu se libertar. No primeiro arco de histórias, ele parte em busca de objetos mágicos que por direito lhe pertencem, e após reuni-los começa a árdua tarefa de reconstruir seu reino, que entrou em decadência durante sua ausência. Mas as coisas não param aí, aos poucos somos apresentados a importantes personagens, como os já citados irmãos de Morfeu, além de Caim e Abel, o Corvo Mathew, Eva, Titânia, Lúcifer, Shakeaspeare, Hob Glading, entre outros. Pequenos acontecimentos plantados no começo da série só mostraram sua importância muitas edições depois e fatos importantes do passado de Morfeu (como ser pai de Orfeu, aquele famoso cantor grego que desceu aos Infernos para buscar a esposa morta) são cruciais no desenrolar da história. De qualquer maneira, contar demais acabaria por estragar a graça de tudo, ainda mais que  existe série completa publicada no Brasil. 

E se não bastasse a ousadia nos textos, Gaiman ainda teve a coragem de encerrar a série no auge do sucesso, com o brilhante argumento de que uma boa história tem começo, meio e fim, e um bom escritor sabe qual a hora de parar. 

Mas milhares de fãs, não apenas de Sonho, assim como das outras minisséries estreladas pelos Perpétuos, viram-se órfãos. E para saciar sua sede de novidades e sua saudade, vários especiais estrelados pelos coadjuvantes do Sonhar (Merv Pumpkinhead e Bruxaria, por exemplo), além de séries mensais derivadas (Lúcifer e Sandman - Teatro do Mistério, estrelada por Wesley Dodds) e especiais como Sandman Dream Hunters, Noites sem Fim e Overture foram lançadas no decorrer dos anos. 

Entre elas, podemos destacar as minisséries e especiais estrelados por uma das mais carismáticas dos Irmãos Sem_Fim: Morte. 

Duas minisséries especiais foram escritas por Gaiman, ainda durante a publicação de Sandman: Morte - O Alto Custo da Vida e Morte - O Grande Momento da Vida 

Outra publicação protagonizada pela personagem e nosso foco de análise aqui é o “mangá” Morte: A Festa . Escrito e desenhado por Jill Thompson, que já trabalhou com os personagens criados por Gaiman em Sandman: Vidas Breves e nos deliciosos contos “infantis” Pequenos Perpétuos e Festa da Delirium (publicado no Brasil pela Panini), Morte: A Festa reconta os fatos apresentados originalmente na revista Sandman durante a saga Estação das Brumas, mas da perspectiva da irmã mais velha do rei dos Sonhos. 

A leitura das histórias originais não é necessária para se compreender os eventos que se passam em Morte: A Festa, uma vez que Jill Thompson recria os momentos mais importantes da saga, mas é muito interessante comparar o modo como ela se apropriou dos elementos de Gaiman para contar sua própria história. Além de ser uma grande oportunidade de se comparar as diferenças e semelhanças das estruturas narrativas dos quadrinhos americanos e dos mangás (tudo bem que é um mangá americano, mas Jill Thompson conseguiu captar o significado do que seja escrever um mangá). Um dos pontos que mais chama atenção nesse sentido são as apresentações dos Perpétuos que aparecem tanto no começo da história do mangá quanto no prelúdio da história original. Thompson consegue transformar a apresentação feita por Gaiman (que é um texto quase romântico e altamente literário) naquelas fichas técnicas de personagens típicas dos quadrinhos japoneses, e ainda assim manter a essência do texto original e das personagens. 

Em Morte: A Festa (o título original seria melhor traduzido como Morte:Às Portas da Morte), Morpheus, o Sandman, se vê em uma situação bastante complicada depois que Lúcifer resolve expulsar todos os demônios e mortos do Inferno, dando de presente a Chave do lugar para o Sonho. Enquanto nosso herói tenta descobrir o que fazer com a “mais cobiçada propriedade psíquica em toda ordem da criação”, sua irmã mais velha também está com problemas sérios, pois os mortos estão voltando. E pior, estão quase todos indo para a sua casa. Como cumprir com seus deveres usuais de ceifadora e ainda controlar um exército de zumbis destruindo seu carpete? O jeito é contar com a ajuda de suas irmãs caçulas Delirium e Desespero, que têm a brilhante ideia de fazer uma festa na casa de Desencarnação para manter os refugiados do Inferno ocupados. 

A grande sacada de Jill Thompson foi ir muito além da mera transformação das personagens originais em versão mangá: ela mergulhou de cabeça na proposta de escrever um mangá passado no universo do Sandman, adotou praticamente todos os elementos da linguagem desse estilo de quadrinhos, especialmente do shoujo (mangá para meninas). Todos aqueles divertidos exageros faciais estão lá, também temos os pequenos comentários em segundo plano sobre determinadas situações, as fichas técnicas, o personagem andrógino, o amor meio impossível e supostamente platônico, o enquadramento de páginas típico dessas revistas. É uma reconstrução perfeita feita por uma americana do que seja escrever um quadrinho japonês. 

Confesso que tinha certas dúvidas se seria possível transformar os personagens de Sandman em mangá, especialmente dado ao estilo de histórias que eles costumam estrelar. Até que ponto eles poderiam ser adaptados para aquela forma narrativa sem perder suas características essenciais? Não achava ser possível fazer isso, mas Jill Thompson provou que eu estava errada. Apesar do tom mais leve da história, os Perpétuos (mesmo Destino e Morpheus, os mais taciturnos) continuam sendo os nossos velhos conhecidos de sempre. 

Acho que o fato da Morte ser a protagonista da história contribuiu muito para isso. Além de ser uma das personagens mais populares e cativantes da série Sandman, com muitos fãs, inclusive esta que vos fala, espalhados pelo mundo, a Morte talvez seja a mais “humana” dos Perpétuos, que mesmo consciente de seus deveres consegue encarar as situações que enfrenta de forma descontraída. Esse posicionamento da personagem facilitou a passagem do clima tipicamente denso das histórias de Gaiman para o tom leve e divertido que os mangás shoujo geralmente possuem. 
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Delirium e Desespero como coadjuvantes são um show a parte e contribuem para o tempero cômico da história. Da primeira era algo até esperado, mas realmente me surpreendi com a versão de Desespero criada por Thompson. Minha concepção sobre a Dama do Anel em forma de anzol mudou completamente. 

A festa propriamente dita é recheada de momentos hilariantes e divertidos, como os sorvetes de Delirium ou o reencontro de Romeu e Julieta, ou a mera ideia de imaginar Mussolini dançando cancan. Outros mortos famosos fazem ponta, como Kurt Cobain, e, com grande destaque, Edgar Alan Poe. 

Talvez um único momento deixe os leitores mais puristas de Sandman um pouco irritados: quando Morte, Delirium e Desespero saem para capturar os mortos desgarrados. Sailormoon demais para os mais implicantes. 

Mas, no geral, Morte: A Festa é excelente. Uma história divertida de se ler e reler (várias vezes) e que não fica em nada a dever para as demais publicações envolvendo os Perpétuos, incluído a série original.O especial deu origem a outro "mangá" baseado em personagens de Sandman: "Dead Boys Detectives", também lançado no Brasil pela Conrad. 

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